quinta-feira, 10 de junho de 2010

Velho Assunto por necessidade de esclarecimento - Obrigatoriedade do Diploma

Eu sei que o assunto já é ultrapassado, mas sempre perguntam, principalmente quem não é da área. Surpreendem-se com minha resposta: “Para mim, pouco importa a não obrigatoriedade do diploma!”.

Vamos aos argumentos:

A obrigatoriedade do diploma serve na prática: 1 - para que haja um jornalista responsável pelos veículos, 2- para que somente jornalistas possam assinar matérias e 3- para que somente pessoas com curso completo de graduação em jornalismo possam ser contratadas como “jornalistas” na carteira ou contrato de trabalho. A decisão do Ministro Gilmar Mendes interfere na vida real apenas nesses três pontos.

A obrigatoriedade do diploma não muda a forma como o jornalismo é produzido, não altera a qualidade das produções nem para mais e nem para menos, não abre o mercado para jornalistas sem formação, não melhora o mercado para jornalistas formados. Não muda rigorosamente nada do cenário atual, sob nenhum aspecto ou esfera. Toda essa polêmica é pura discussão inútil.

Discute-se demais no campo teórico, mas essas tais mudanças não são trazidas para a vida real.
No mundo real temos hoje pessoas formadas em qualquer coisa, escrevendo, editando, pautando e realizando qualquer atividade jornalística mesmo que fosse o diploma obrigatório. A função na carteira de trabalho nesse caso é “analista” ou algum outro cargo que não jornalista, repórter, redator. A obrigatoriedade do diploma (se houvesse) só existiria para quem fosse contratado como jornalista (e cargos relacionados) com esse nome descrito no contrato/carteira de trabalho.

A Folha de São Paulo já usa esse esquema há tempos, independente de obrigatoriedade do diploma. Qualquer pessoa com qualquer curso superior completo pode se candidatar no processo seletivo da Folha, desde sempre. Lá fazem um treinamento de jornalismo, que nada mais é do que ensinar a Cartilha de jornalismo da Folha. Os que mais de adaptam, ficam. Outros veículos também fazem dessa forma, como o Grupo Abril. Claro que isso pode ser considerado “ilegal”. Mas é assim que acontece na prática, sempre, mesmo com obrigatoriedade.

Os veículos que não contratavam jornalistas vão continuar não contratando jornalistas a partir da não obrigatoriedade. E se isso for revogado, ainda sim contratarão pessoas formadas em biologia para fazer reportagens sobre meio ambiente. Ou seja, discute-se demais a teoria, mas na prática sabemos que algumas grandes empresas do ramo nunca contrataram somente jornalistas. Só faria sentido obrigar as empresas a contratarem jornalistas se houvesse fiscalização da lei que instituiu a obrigatoriedade. Mas isso é um aparelhamento (a fiscalização) inútil e desnecessário, pois sempre haverá a brecha do “colaborador”, da “liberdade de expressão”.

Isso sem contar os veículos pequenos, regionais, jornais de pequenas cidades, jornais de pequenos sindicatos, informativos empresariais: uma parte considerável deles continua a ser produzido por quem não tem nenhum curso superior, ou pela secretária, o analista de RH ou por quem estiver com menos serviço para fazer.

Temos que considerar também a atribuição de cargos como “atendente”, o contrato “PJ” ou ainda a manobra de transformar o funcionário em sócio, para, de maneira fraudulenta, fugir do piso salarial e da carga horária de 5 horas por dia para os jornalistas.

Em suma, na prática, vida real, dia a dia, nada muda: veículos que nunca contratam jornalistas formados vão continuar assim após a não obrigatoriedade do diploma. Veículos que contratam jornalistas formados, vão continuar exigindo a formação para os novos profissionais.

A área que mais dá emprego aos jornalistas hoje, assessoria de imprensa, contratava seus profissionais como “atendentes”, “analistas de comunicação”, “assessores de comunicação” para burlar a necessidade de diploma de Jornalismo. Esse é o mundo real e não a retórica. Em uma grande Assessoria de Imprensa de Campinas, mesmo com a obrigatoriedade, cerca de 25% dos assessores de imprensa eram formados em Relações Públicas. Os demais eram jornalistas por formação. O mesmo acontecia na assessoria de imprensa da Peugeot, visitada por nós num trabalho para a Faculdade, só que lá mais da metade dos assessores eram RP’s.

Depois da queda da obrigatoriedade do diploma para exercício do jornalismo, a profissão de assessor de imprensa continuará a ser ocupada majoritariamente por jornalistas, mas podemos ter RP’s, publicitários, conforme o momento, a crise, o assessorado, a necessidade, mesmo que o diploma fosse obrigatório para função de jornalista.

As empresas jornalísticas que prezam pela formação em jornalismo vão continuar a contratar somente jornalistas formados. Aqui na região de Campinas podemos citar a RAC e a EPTV que apenas contratam novos jornalistas formados em jornalismo. Somente recém saídos das faculdades de jornalismo ocupam cargos para realizar atividades jornalísticas nessas empresas. Detalhe: nem todos são contratados como “jornalistas” também. Portanto nada muda: com ou sem obrigatoriedade do diploma as grandes empresas de comunicação que só contratam jornalistas continuam a fazê-lo.

A obrigatoriedade do diploma não garante que o formado em jornalismo está preparado para o exercício da atividade. Faria todo sentido avaliar os formados em jornalismo antes de habilitá-los ao exercício da profissão se o diploma fosse obrigatório. Seria mais ou menos como ter acesso à carteira da OAB para advogados. Afinal são mais de 400 cursos de jornalismo no Brasil e não há sentido na obrigatoriedade do diploma se não pudermos avaliar quem de fato são os bons profissionais. Se a formação proporcionada pela faculdade é de tanta importância e se essa formação é totalmente necessária para a sociedade, não podemos presumir que os 3000 jornalistas formados anualmente estão de fato preparados. Não podemos acreditar que todas as faculdades têm o mesmo currículo atualizado e estrutura necessária. Por isso é justo que possamos avaliar quem de fato poderia exercer a profissão, de forma padronizada. É aí é que o bicho pega. Porque se formos avaliar com seriedade, constataremos que uma parcela pequena desses 3000 formandos tem condições técnicas para ocupar o cargo de jornalista.

Eu estudei jornalismo e posso afirmar que mais da metade da minha classe não sabe escrever. Posso afirmar que outros 20% não apreenderam todas as técnicas e a base teórica transmitida pela faculdade, em sua plenitude. Posso afirmar ainda que outros 10% não tem "feeling", não tem vocação. Sobram 10% só, que escrevem bem, que entenderam e estudaram técnica, teoria e prática e que tem vocação e talento.

O diploma de jornalismo não fica inválido por causa da não obrigatoriedade do diploma para exercício da profissão. Quem está estudando ou já se formou em jornalismo continua a ter uma graduação superior reconhecida. Como já dito, diversas empresas, inclusive a Rede Globo, Band, Jornal Estado de São Paulo, exigem a formação em jornalismo para novos contratados.

Posso fazer um Mestrado, uma pós, um concurso público que exija qualquer formação superior com meu diploma de jornalismo e posso trabalhar na área de publicidade, de relações públicas, de gestão, administração, marketing, recursos humanos em qualquer empresa que exija apenas a formação superior em qualquer curso para essas vagas. Ou seja, não é somente em jornalismo que profissionais de outra formação podem atuar. Eu mesmo, formada em jornalismo estou “roubando” uma vaga de uma pessoa formada em ADM, porque nesse caso específico desejou-se que o cargo fosse ocupado preferencialmente por quem tivesse formação em Comunicação.

Temos, portanto, os dois lados da moeda: o jornalista por formação, além de trabalhar em jornalismo pode atuar em qualquer outra área que não exija diploma para o exercício da profissão. Ainda sim, o jornalista é profissão regulamentada, assim como o bancário , assim como o contador. A diferença é que para ser contador é necessário diploma. Regulamentação é uma coisa, obrigatoriedade do diploma é outra e validade do diploma é outra ainda.

Por tudo isso, essa história de que a não obrigatoriedade do diploma prejudica quem está formado, prejudica a qualidade do conteúdo dos veículos, faz com que tudo seja um ‘samba do crioulo doido’ é tudo mentira. Corporativismo sim e aqui quem fala é uma pessoa formada em jornalismo. Jornalismo não é técnica, é vocação. Para quem tem vocação e é formado ou não, sempre haverá espaço.

Os mecanismos e políticas que podem mudar a realidade da produção jornalística brasileira referem-se muito mais a democratização da informação e todos os seus capítulos a parte. Mas isso é outro assunto.

3 comentários:

welinton andrade disse...

considerei seu artigo realista, equilibrado, inteligente e lúcido. parabéns

welinton andrade disse...

gosto muito de contatos profissionais com pessoas inteligentes. sou radialista profissional, apresentador de tv, colunista de jornal e revista no litoral de são paulo. gostaria que participasse do nosso facebook/welinton andrade. abraços

Fabiana Oliveira (Dott) disse...

Adicionado!